"PONTO A PONTO"
Performance - instalação
2023
A performance-instalação Ponto a Ponto nasce do gesto de guardar aquilo que parece ser insignificante: pequenos papéis que marcam entradas e saídas, dias de trabalho de presenças quase anônimas diante da máquina do relógio ponto. Com o passar dos anos, esses pequenos papéis se tornaram mais do que registros; passaram a representar interfaces poéticas do meu cotidiano laboral.
Desse modo, Ponto a Ponto tem como principal veículo de ativação a coleção de tickets de relógio ponto do Museu Oscar Niemeyer (MON), acumulados dia após dia entre 2012 e 2019, durante os oito anos em que estive vinculada à instituição sob o regime da CLT. Os tickets organizados por ano, mês e dia de trabalho, e também pelos horários de entrada e saída passaram a ocupar a minha antiga maleta de pintura para tintas a óleo. Essa pequena coleção — que reúne 2.316 tickets — permaneceu em latência durante onze anos (de 2019 a 2023), em um lugar de prospecção, à espera de uma margem do tempo.
“[...] Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei. [...] Esse tempo passado, foi longo quando já havia passado ou quando ainda estava presente? [...] Como então podem existir esses dois tempos, o passado e o futuro, se o passado já não existe e se o futuro ainda não chegou? [...] Por isso, o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir.
[...] Mas vejamos, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo, porque foi-te dada a prerrogativa de perceber e medir os momentos. Que me respondes?”
Confissões (Livro XI, capítulos XIV - XVI) de Santo Agostinho.
Se, para Agostinho, o tempo só existe na experiência da alma — memória do passado, atenção ao presente e expectativa do futuro —, os tickets de relógio ponto materializam essa tripla tensão: são rastros de dias já vividos, testemunhos de uma presença registrada e vestígios de um futuro que se projetava na repetição. Ao reunir esses fragmentos em performance, busco evidenciar a contradição: o tempo tende a não existir, mas é justamente nesse risco de desaparecimento que se confirma a realidade. Jacques Derrida (1995) nos lembra que todo arquivo nasce do desejo de guardar e do risco de perda. Em Ponto a Ponto, os tickets de relógio ponto, frágeis e descartáveis, testemunham essa tensão entre memória e esquecimento.
Ponto a Ponto se inicia em uma mesa composta por objetos que ressurgem da minha trajetória poética como que em um tempo espiralar[1]. A maleta de pintura com os tickets, o retalho de veludo preto, as linhas do tecido desfiado aderidas ao nº do PIS/Pasep, os frascos de conta-gotas com nanquim colorido e o vidro com massinha para a pintura n’água, um metro e meio de elástico branco da atividade integradora do ApM[2], a esfera de massa de modelar transformada em agulheiro, os balões cheios d’água dentro da bacia esmaltada, o frasco com talco que agora polvilha as mãos, a linha vermelha anteriormente utilizada na sala azul, a lupa, o novelo de trapinhos, o relógio de outras horas em outra performance. Esses objetos e materialidades, relidos, reorganizados e instaurados em nova ordem relacional, aproximaram a criação da performance, de uma espécie de curadoria do meu acervo de trabalhos, do meu inventário poético. As paletas de sombras coloridas - presentes em minha poética desde os anos 90, como materialidade pictórica usada principalmente sobre o veludo italiano - agora dialogam com o gesto sobre a face, o espelho e a persona.
A partir do gesto cuidadoso com a agulha, que perfura sistematicamente cada ticket, a linha se expande ao som ruidoso do relógio ponto, que remete tanto à emissão de cada ticket quanto ao movimento do corpo no dia a dia de trabalho. A performance-instalação Ponto a Ponto teve duração de 8 horas (das 10h00 às 18h00).
[1] O termo "espiralar" foi utilizado por Isabella Rjeille, curadora do Masp, em seu texto para o catálogo "Cinthia Marcelle: por via das dúvidas" – São Paulo: Masp, 2022.
[2] ApM é a abreviação para o programa Arte para Maiores, utilizada de maneira informal pela equipe do Educativo do Museu Oscar Niemeyer.

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“Na segunda metade do século XX, arte e vida são indissociáveis, trazendo a reflexão sobre o modo de ser e estar no mundo. Como produzir vida? Como criar práticas de produção de si?” Diogo Rezende, 2016.
Para o artista visual e arte-educador Rodrigo Munhoz, Ponto a Ponto traz à cena uma geração de artistas (hoje entre 30 e 55 anos) formada por pessoas que, de uma forma ou de outra, se encontraram no lugar da arte-educação. Essa realidade, para o bem ou para o mal, invade a poética do artista de forma indissociável, pois, segundo Munhoz, ao passar a maior parte do tempo no ambiente de trabalho, torna-se impossível não se contaminar por ele, em decorrência da vivência diária.
No entanto, Ponto a Ponto não se encerra no contexto pessoal: também busca trazer à tona uma crítica ao modo como o trabalho coloniza a vida. Encena o conflito entre a cronologia fria do relógio ponto — dispositivo disciplinador da rotina[1], que captura o corpo moldando-o por meio da vigilância, regulação e alta produtividade — e outros tempos do corpo e da memória: o tempo do desejo, o tempo das relações, da criação, da expansão do estado presente, da experiência da alma, onde, segundo Agostinho, o tempo existe e resiste na memória.
Desse modo, propõe uma reflexão sobre a captura da vida pelo trabalho, onde o tempo não é apenas contado, mas colonizado pela lógica capitalista. Grande parte da vida adulta é absorvida pelo trabalho: cerca de um terço do dia, por décadas. Como afirma Maurizio Lazzarato (2006): “O capitalismo se apropria da vida, não mais apenas através da produção de mercadorias, mas também pela produção de subjetividade, afetos e saberes.” Para Lazzarato, no capitalismo cognitivo, a exploração do trabalho se dá pela apropriação da criatividade e da subjetividade dos indivíduos.
Com curadoria de Eduardo Amato, a performance- instalação Ponto a Ponto integrou o 3º Encontro em Performance MAC PARANÁ, realizado no Salão de Eventos do Museu Oscar Niemeyer
Referências:
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Livro XI, Capítulos XIV - XVI. Tradução de Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 2017
DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo: Uma Impressão Freudiana. Tradução de Claudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001. ISBN 85-7229-113-3.
REZENDE, Diogo. Na segunda metade do século XX, arte e vida são indissociáveis... In: ARTE, CULTURA E SUBJETIVIDADES. Curitiba: PPG-Cineav/UNESPAR, 2016.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Maria Luiza Heilborn. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. (A edição original em francês é Surveiller et punir, 1975).
LAZZARATO, Maurizio. As revoluções do capitalismo. Tradução de Leonora Corsini. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 104.
[1] Michel Foucault descreve como o tempo se torna elemento central da disciplina, penetrando o corpo e regulando sua rotina de maneira minuciosa: “O tempo penetra o corpo, e com ele todos os controles minuciosos do poder. O tempo disciplinar se impõe: determina os atos, é subdividido e prescrito. Estabelece ciclos de repetição, impõe ritmos e obriga a ocupações regulares. Ele regula a sucessão dos gestos elementares. É tempo organizado de acordo com um esquema de obediência e de submissão.”
(FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987 [1ª ed. francesa 1975]. Parte III, Capítulo “Disciplina”, p. 153-154 da edição brasileira).
Ponto a Ponto
Performance / instalação
2023
Materialidades: maleta de madeira; tickets de papel do relógio ponto do Museu Oscar Niemeyer (MON); etiquetas adesivas; tecidos; grampos binder; elásticos; novelo de linha para bordado; agulha; vidros; água; massa de modelar revestida por filme plástico; régua de metal; frasco coberto por veda-rosca contendo talco; estojos de paletas de sombras; batom; captador de frequência sonora; caixa de som portátil; tripé; relógio de parede; celular; cabo para conectar celular à caixa de som; extensão elétrica; escada; caneta nanquim; papel sulfite; lupa.
Dimensão: variável
Coleção da artista
Fotografias: Hanna Torquato
Vídeos: Adriana Marques Canha

























